Memorial Descritivo de minha vida acadêmica
São tão nossas e dos outros as memórias que construímos ao longo de nossas vidas que me ponho a pensar na história econômica e social de meus antepassados. Só hoje fui capaz de perceber o quanto ela influenciou e influência na formação de um individuo e da comunidade o qual ele faz parte. Reporto-me sempre com louvor a minhas origens, toda vez que preciso, período em que ainda estamos em formação, enternecidos e presos às lembranças culturais de onde nos originamos!
Filha de nordestinos que migraram há mais de 50 anos para a região sudeste do Brasil, como boa parte da população da grande São Paulo, que chega hoje há 45%, segundo a revista Rede Brasil Atual, publicada em 06 de outubro de 2011. Hiperativa, expansiva atleta, magra, muito magra e a ovelha negra da escola e da família por muitas vezes e acredito que tenha sido por dificuldades que vinham das origens economica e culturais, que repercutiam no processo de meu aprendizado escolar que por causa da baixa escolaridade de meus pais, quase sempre não tinha apoio para executar as tarefas designadas para fazer em casa. Os comentários vinham carregados sempre de criticas e preconceitos por conta disso e dos ocorridos na escola. Hoje me recordo com frequência da importância de cada uma daquelas atividades esportivas que fazia para o desenvolvimento de minhas habilidades cinético-motoras, já que me fizeram competente para o desenvolvimento da profissão que exerço hoje na vida adulta, a docência escolar.
Foi em um momento de crise familiar que pensei em estudar para me tornar professora junto a minha conversão ao evangelho que foi concomitante, e que de alguma maneira me disciplinou dentro dos ensinamentos de Cristo, que, sobretudo tem como fundamento o amor e a valorização da essência, isso em 1999. Como dito por Feuerbach: “Nosso tempo, sem dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado”. Prefácio à segunda edição de A Essência do Cristianismo. (GUY DEBORD, 1992). Lembrei desse paragrafo por ver o quanto naquele período já carregava os ideais do amor e valorização do que hoje não se valiriza mais.
Como a muitos estudantes, talvez por admiração a profissão ou por achar que “feliz é aquele que consegue transferir o que sabe, seja por amor, e aprende mais o que se ensina como disse Cora Coralina (Global. 2007)”. Até aquele momento eu já havia construído uma longa carreira celibatária que me concedia as virtudes necessárias para servir a quem precisasse em qual situação estivesse, sem a preocupação de me julgarem por isso. Na década que estudei nos idos finais de 80, os professores ainda eram tidos como intelectuais e formadores de opinião. Características essas que se perderam ao longo do tempo e no processo educacional, contexto agora de arrocho salárial, pauperização e proletarização do professor, conforme relata o livro. “A Proletarização do Professor”, Ed.Sundermann.
Quando me candidatei a uma vaga a ser professora eventual ainda não era formada, mas lidava com as frustações da categoria que era assunto premente na sala dos professores. Na faculdade os relatos eram sempre otimistas e nos faziam acreditar que ainda seria possível mudança... Um ano depois me formei e deixei a secretaria estadual do meio ambiente, lugar que trabalhei como estagiária, onde todos, exceto eu, não havia me formado na USP e por isso acabava por sofrer quase sempre críticas por minha opção religiosa que parecia alienante, já que a pregação também era feita, mas de modo a exaltar B. Bakunin, Backtin, linguista gente fina e o marxismo . Um ano antes de terminar o contrato, já havia me concursado na secretaria estadual da educação, e por saber também que não tinha suporte técnico para continuar trabalhando com geoprocessamento, neguei e agradeci a oferta de minha chefa em continuar por mais um ano junto a CETESB, já que ensinar o que se sabe em lugares de estrema competição, geram riscos para os que ensinam. Procurei então a me dedicar exclusivamente à profissão docente, sempre levando na lembrança todas as vezes que encontrava alguma dificuldade ou o desejo de desistir os professores de minha socialização secundária, do qual guardo boas lembranças em memória, ainda que encorajasse a formação de cidadãos muitas às vezes nacionalistas, conservadores, preocupados com os valores morais e da família e ainda conteudistas e disciplinadores, démodé a contemporaneidade. Foram os professores de minha infância, então, para mim os melhores do mundo.
Como a muitos que se formaram nas últimas décadas, a minha foi um quanto capenga, não pior do que é hoje em algumas universidades particulares, e aos olhos de alunos de outras universidades, como as públicas. Porém em todo tempo a formação paralela que procurei exercer por ter vivido quase sete anos de maneira disciplinada aos valores e condutas exigidos na religião o qual fiz parte durante 14 anos de minha vida, me dividindo aos estudos religiosos, vestibulares populares não formais e formais. Nos cursinhos comunitários o qual passei como, o Institutis organizado por alunos da USP na região do Brooklin, a EDUCAFRO, e depois de um tempo, o MSU e então por fim a faculdade particular, que era presencial e também aos sábados. Participava dos cursos de nivelamento de matemática e língua portuguesa na tentativa de recuperar o tempo perdido em casa em frente à televisão. Depois de dois semestres cursei sociologia como carga suplementar a geografia.
Tive excelentes professores em minha graduação, inclusive de outras nacionalidades que nos ajudaram a ter um olhar além do comum, para as coisas do mundo. Estudava com vídeos das atualidades on-line do cursinho objetivo, além do CPFL cultural, com palestras aos domingos que me auxiliavam no aprendizado com os filósofos e psicanalistas como Renato Janine, Maria Rita kehl, Jorge Forbes, Paulo Gaudêncio, Marcia Kifuri, Viviane Mosé, Provocações, Antonio D'avila e etc.
Apesar de tardia por ter se iniciado aos 21 anos, com preparação a universidade, minha formação foi embasada também no esforço físico, além desses outros meios não formais de aprendizado.
Todos esses espaços de formação o qual fui submetida ora de maneira voluntária e outras não, fizeram de mim, desde a primeira infância uma pessoa diferenciada. Em alguns aspectos positivos e em outros negativos. E só quando efetivamente passei a conviver com professores da educação básica em escolas públicas e particulares, aonde nos reuníamos para construção de projetos e estratégias de ensino na educação básica, foi que percebi o quanto tudo que fiz e aprendi quando criança, relacionado ao esporte, música e artes de uma maneira em geral, me tornaram uma pessoa apta a desenvolver minha profissão.
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